Pelo que oiço e leio, arrisco-me a dizer que anda por aí uma geração de jovens pais obstinados em fazer com que as suas crias oiçam apenas a "verdadeira música". Tão curioso este comportamento ser fomentado pelos mesmos que passam os dias a reviver o passado: "nos 90's é que era!"..
Agora é foleiro, uncool, que os bebés oiçam canções de..bebés. A única coisa que devem ouvir é aquilo que os pais ouviram na sua adolescência. Educados desde pequeninos com boa música, dizem.
O que é a boa música? É uma pergunta que já deu pano para mangas em vários blogues e fóruns de discussão. Nem vou por aí. Apenas questiono: se os bebés não puderem ser bebés quando efectivamente o são, quando é que vão ser?
Todos nós não crescemos com as músicas da carochinha e afins?
E isso impediu-nos de ouvir Metallica quando chegámos à adolescência?
A cada fase da vida, o seu tempero próprio. Não vale a pena crescer antes do tempo.
Custa muito mudar. Tornar-me melhor. E quanto mais tempo passa, mais custa.
Não quero desistir de ninguém, nem de mim. Mas como tudo na vida, para que a mudança seja bem alicerçada, terá de ser feita ao meu ritmo. Seja ele qual for.
Quantas vezes já ouvi estórias de pessoas que vêem a vida mudar no espaço de um ano. Voltas de 180º que nunca nos seus sonhos mais loucos pensaram que viessem a acontecer. Também tenho uma estória assim.
Há um ano a minha vida começou a mudar. Todas as ansiedades e frustrações laborais iam ficar para trás e eu nem desconfiava. Estava prestes a iniciar um período de 15 dias de férias, que se transformaram em 11 meses de ausência do mundo do trabalho. E eu nem desconfiava. Entretanto descansei, revolucionei a casa onde moro; fui mãe e a vida revolucionou-me. A licença de maternidade chegou ao fim, e iniciei nova vida laboral. Todos os pesadelos ficaram a fazer parte do passado.
Agora é bola para a frente e, aconteça o que acontecer, já valeu a pena.
E de repente tudo muda.
No segundo anterior ouve-se um "vá, faça força, continue, isso mesmo", e de um estado chamado de graça passamos a uma luz que envolve as nossas vidas e oblitera tudo o resto. Essa luz provém de um pequenino ser que colocaram na minha barriga no segundo seguinte. E só fui capaz de dizer "o meu filho..".
Bem vindo Gabriel, amor da mãe.
Vamos viver uma grande aventura, cheia de amor.
E obrigada, amor meu, por estares sempre ao meu lado e partilhares esta luz tão grande.
Existe?
É possível?
Eu ando a sentir algo do género..
Do sentimento "não vejo a hora de o ter nos braços" passei para o "ainda não..mais um tempinho cá dentro..37 semanas é muito cedo..". É claro que quero o meu filho comigo, cá fora. Até porque fisicamente estou cada vez mais limitada; pareço uma tartaruga a virar-se na cama, e raramente consigo fazê-lo à primeira com êxito.
Mas ele está tão bem na barriga... é alimentado, não apanha frio, está "lavadinho", não chora com cólicas, não precisa de carrinho ou ovinho para acompanhar a mãe nas voltas a dar.
Ou seja, estou borrada de medo de não ser capaz, acho que é isso.
Olho para os últimos meses e sorrio. Parece que passaram muito rápido, mas ao mesmo tempo não. Aquele choque inicial já está longe do meu pensamento. Sinto que o meu estado actual é algo que sempre fez parte de mim.
Os enjoos matinais. Suspeitos..
O teste da famácia - positivo!
Mas como sou pessoa ponderada, calma, pode ser engano. Há que ir ao médico comprovar. E a perna, têm de me acompanhar nessa situação.
A ida ao médico. A confirmação. Aquele pontinho no ecrã com 1,6cm, a mexer ao ritmo do coraçãozinho - tumtumtumtumtumtum - tão rápido e forte :)
Uma segunda médica para acompanhar o caso da perna. A odisseia da medicação a tomar. O regresso das injecções - de malditas a benditas, mas traumáticas, sempre. A rejeição de certos alimentos (fritos, gorduras) e a procura e desejo daqueles mais adequados (melão, agrião, laticínios). A Natureza é sábia e o nosso organismo indica-nos o caminho certo :)
A 1ª ecografia, às 12 semanas. O feijãozinho em todo o seu esplendor :) A médica arrisca um palpite sobre o sexo, mas achei prudente salvaguardar possíveis enganos. Mais tarde, confirmou-se, e sem qualquer margem para dúvida: it's a boy :) e será Gabriel.
Pouco a pouco noto que estou a ficar mais lenta, de pensamento, de movimentos, com falhas de memória. Uma clara partilha de recursos :) A barriguinha começa a empinar, mas a roupa ainda serve. Excepto os soutiens; todas as grávidas acabam por ir lá parar um dia, e eu não seria excepção: Pré-Natal. Aconselharam-me os da Zippy mas não gostei muito. Mais tarde descobri os da H&M e também são bons. Só às 18 semanas é que investi em calças de grávida. A ver: Modalfa e H&M.
Também não escapei à dúvida cruel que assalta todas as marinheiras de primeira viagem: será que é o bebé a mexer ou são gases? Não há que ter vergonha de assumir, a nossa tripa também mexe e, sim, é legítimo confundir nas primeiras vezes. Até porque os primeiros movimentos do bebé são muito ténues. Nada daqueles pontapés de futebolista - isso é mais para a frente.
Tive a certeza pelas 18 semanas :) O que ajudou a desfazer as dúvidas foi o local da barriga onde senti movimento: mais em baixo, onde só poderia estar o útero. É uma emoção sem fim. É vida dentro de mim!
O carinho da família e dos amigos. É um calor que nos envolve e aquece o coração. Sente-se a energia positiva a transitar de pessoa em pessoa. É tão bom :)
Impossível não lembrar esta canção. E ler o amor que sinto pelo meu filho nas entrelinhas da letra:
Bom, tudo, tudo não. O stress, o bulício, os nerves gratuitos e totalmente desnecessários, esses sim. E de repente, uma imensidade de tempo disponível. Como se tivesse saído o jackpot do Banco do Tempo.
Cai uma enxurrada de pensamentos, todas aquelas pendências que fui acumulando ao longo dos anos (gostaria de fazer isto, aquilo, inciar coisas, finalizar outras). Um rol que parecia impossível de pôr em prática.
Depois do dia da distribuição das mobílias e objectos por várias aldeias, consoante a necessidade de cada um, há ainda muito que fazer.
Das três frentes de batalha, passaram a duas. Desistiu-se de uma casa, de um projecto, e toca a transformar uma vida em duas. Mas não esquecer a rectaguarda, o local de escape que tantos anos esteve parado. Chegou a vez do Oeste se compor.
Hoje já consegui organizar as mobílias e afins. A disposição da sala não agradou à primeira. O tal conflito do velho vs. novo, o nunca romper com o passado mas ter de acolher o futuro. Sigh, isto tem de ser com muita calma.....
Agora, falta limpar a fundo e limar umas arestas. Algo animador para a próxima visita: a Cruz Vermelha recebe roupas! Finalmente posso fazer uma selecção do que já não é usado mas ainda está bom para o ser.
A outra frente de batalha afigura-se como um Adamastor... mete medo, perco a coragem só de olhar..
De bom grado trocava com a malta do futebol. Até porque na escola sempre me disseram que rematava muito bem com o pé esquerdo :P