É muito tempo. É uma quase uma vida inteira. A ferida não está tão fresca. Mas tornou-se mais amarga. A saudade seca-nos por dentro. Treinei-me a não parar para pensar, dói menos no dia-a-dia. Mas torna a dor mais profunda. E quando esta nos apanha em falso, ruímos como nos primeiros dias.
É tramado, muito tramado.
E quando vemos quem mais amamos passar pelo mesmo processo, a dor duplica. E olhamos com desânimo para tudo. Porque sabemos que vamos aprender a viver com a perda, mas não saímos inteiros dessa aprendizagem. E não se pode fazer mais por ninguém.
Reparo agora que escrevi este post no plural quando falo de mim. Acho que é por saber que não sou a única assim. E sinto-me menos órfã.
E de repente tudo muda.
No segundo anterior ouve-se um "vá, faça força, continue, isso mesmo", e de um estado chamado de graça passamos a uma luz que envolve as nossas vidas e oblitera tudo o resto. Essa luz provém de um pequenino ser que colocaram na minha barriga no segundo seguinte. E só fui capaz de dizer "o meu filho..".
Bem vindo Gabriel, amor da mãe.
Vamos viver uma grande aventura, cheia de amor.
E obrigada, amor meu, por estares sempre ao meu lado e partilhares esta luz tão grande.
Às vezes não acredito que estou grávida. Eu. Não é a amiga, a vizinha, a prima. Sou eu. É a minha vez. A barriga já se nota bem. Não há como esquecer esse facto, como acontece no primeiro trimestre.
E, mesmo assim, custa a acreditar. Apesar de ao mesmo tempo achar que este vai ser o meu novo estado natural: o sentir vida dentro de mim. Mas eu? Eu estou mesmo grávida?
Talvez por ter tido um percurso acidentado em termos sentimentais e familiares, não houve um build up que convergisse para que a gravidez fosse um momento sequencial na minha vida. Na verdade, acho que já tinha posto de parte a ideia..
Mas o que é certo são os pontapés e espreguiçadelas do Gabriel, cada vez mais definidos e constantes. E é tão bom :)
Olho para os últimos meses e sorrio. Parece que passaram muito rápido, mas ao mesmo tempo não. Aquele choque inicial já está longe do meu pensamento. Sinto que o meu estado actual é algo que sempre fez parte de mim.
Os enjoos matinais. Suspeitos..
O teste da famácia - positivo!
Mas como sou pessoa ponderada, calma, pode ser engano. Há que ir ao médico comprovar. E a perna, têm de me acompanhar nessa situação.
A ida ao médico. A confirmação. Aquele pontinho no ecrã com 1,6cm, a mexer ao ritmo do coraçãozinho - tumtumtumtumtumtum - tão rápido e forte :)
Uma segunda médica para acompanhar o caso da perna. A odisseia da medicação a tomar. O regresso das injecções - de malditas a benditas, mas traumáticas, sempre. A rejeição de certos alimentos (fritos, gorduras) e a procura e desejo daqueles mais adequados (melão, agrião, laticínios). A Natureza é sábia e o nosso organismo indica-nos o caminho certo :)
A 1ª ecografia, às 12 semanas. O feijãozinho em todo o seu esplendor :) A médica arrisca um palpite sobre o sexo, mas achei prudente salvaguardar possíveis enganos. Mais tarde, confirmou-se, e sem qualquer margem para dúvida: it's a boy :) e será Gabriel.
Pouco a pouco noto que estou a ficar mais lenta, de pensamento, de movimentos, com falhas de memória. Uma clara partilha de recursos :) A barriguinha começa a empinar, mas a roupa ainda serve. Excepto os soutiens; todas as grávidas acabam por ir lá parar um dia, e eu não seria excepção: Pré-Natal. Aconselharam-me os da Zippy mas não gostei muito. Mais tarde descobri os da H&M e também são bons. Só às 18 semanas é que investi em calças de grávida. A ver: Modalfa e H&M.
Também não escapei à dúvida cruel que assalta todas as marinheiras de primeira viagem: será que é o bebé a mexer ou são gases? Não há que ter vergonha de assumir, a nossa tripa também mexe e, sim, é legítimo confundir nas primeiras vezes. Até porque os primeiros movimentos do bebé são muito ténues. Nada daqueles pontapés de futebolista - isso é mais para a frente.
Tive a certeza pelas 18 semanas :) O que ajudou a desfazer as dúvidas foi o local da barriga onde senti movimento: mais em baixo, onde só poderia estar o útero. É uma emoção sem fim. É vida dentro de mim!
O carinho da família e dos amigos. É um calor que nos envolve e aquece o coração. Sente-se a energia positiva a transitar de pessoa em pessoa. É tão bom :)
Impossível não lembrar esta canção. E ler o amor que sinto pelo meu filho nas entrelinhas da letra:
Fragile Like a baby in your arms Be gentle with me I'd never willingly Do you harm
Apologies Are all you seem to get from me But just like a child You make me smile When you care for me And you know
It's a question of lust It's a question of trust It's a question of not letting What we've built up Crumble to dust It is all of these things and more That keep us together
Independence Is still important for us though (we realise) It's easy to make The stupid mistake Of letting go (do you know what I mean)
It's a question of lust It's a question of trust It's a question of not letting What we've built up Crumble to dust It is all of these things and more That keep us together
Kiss me goodbye When I'm on my own But you know that i'd Rather be home
1st gig of the year: Emir Kusturica & the No Smoking Orchestra.
Concerto onde não interessa cantar mas sim dançar e pular. E muito!
Memorável por ser à 3ª tentativa que consigo ver este espectáculo. Até qu'enfim!
Emotivo por recuperar um concerto que a perna e as vicissitudes da vida me tiraram o ano passado.
Acolhedor, pela sala. A sala do último concerto do ano passado (mágico!). A sala do primeiro concerto deste ano. Que mais uma vez provou estar à altura de qualquer exigência sonora, fazendo frente ao velhinho Coliseu.
Quentinho o coração. Pela música e pelo toque.
Auspicio de um ano mais feliz em vários horizontes.
Segundo este site, eu sou tipicamente East London and Docklands:
- vista as suas mais estafadas roupinhas Converse e vá investigar as curiosas lojas "vintage", descobrir designers de ultra-vanguarda nos seus fascinantes atliers em Brick Lane, Petticoat Lane e Ridley Road. Aqui encontrará também um mundo fervilhante de pequenos clubes, salas com música ao vivo e gastronomia dos quatro cantos do mundo.
Mergulhe nesta atmosfera aberta e tão variada, que se abriga entre paredes de tijolo cobertas de graffiti e deixe que os sons extravagantes da cena underground de East London lhe dêem as boas vindas ao mundo.
Quem diria, o lado groovy da minha princesa :)
Dever-se-à a Greenwich, local que adoro adoro adoro!
Margarida Pinto canta que há palavras que nos beijam. Pois eu digo que há cidades que respiram, que envolvem, que atraem de uma maneira inexplicável.
Faz hoje 14 anos que conheci um amor da minha vida.
E fiquei inexoravelmente ligada para sempre a Londres.
Como se fosse possível unir um ser humano a uma cidade até não conseguir diferenciar um do outro. Ou se fosse possível humanizar uma cidade e aproximá-la da essência humana. Nos momentos tristes, a lembrança traz-me conforto e consola-me. Nos momentos alegres, representa o bulício próprio da felicidade.
Nos momentos de loucura e desespero, quando tudo já não importa, e só queremos desaparecer, serve-nos de teste: “Quando alguém está cansado de Londres, está cansado da vida”(Samuel Pepys); e então descobrimos que não, e surgem algumas forças para continuar o dia a dia.
Ficam snapshots de elementos identificadores dessa cidade, embora aquilo que nos faz gostar e lembrar Londres não seja possível captar numa fotografia.
Fotos que despertam saudades a quem lá foi, aguçam o apetite de quem lá irá, e fazem sorrir o coração de quem nunca de lá sai. Como eu.